sábado, 20 de setembro de 2008

A "escola-quartel"

Por um modelo de educação que não pode persistir...


Para Foucault, os processos disciplinares tornam-se formas gerais de dominação a partir dos séculos XVII e XVIII. Buscam aprofundar a sujeição do corpo humano ao mesmo tempo em que aumentam suas habilidades, tornando o corpo simultaneamente submisso e exercitado, através de determinados recursos e técnicas.

Percebe-se, na leitura do romance “O Ateneu” de Raul Pompéia, a presença das principais características que Foucault enumera a respeito da disciplina. A própria estrutura do internato é exemplo disso. No dizer de Foucault:

“A disciplina às vezes exige a cerca, a especificação de um local heterogêneo a todos os outros e fechado em si mesmo. (...) o internato aparece como o regime de educação senão o mais freqüente, pelo menos o mais perfeito”.

A disciplina, além de cercar os indivíduos, também os distribui de modo que cada um tenha seu lugar próprio e exerça uma função específica. É a chamada técnica do quadriculamento, que faz com que os indivíduos possam ser mais bem controlados e render mais. Outro exemplo dessa técnica de distribuição que pode ser aplicado ao estudo do Ateneu diz respeito à subdivisão nas classes e à posição na fila. Nesse sentido, há um forte contato entre os textos de Foucault e Pompéia:

“Nos colégios dos jesuítas, encontrava-se ainda uma organização ao mesmo tempo binária e maciça: as classes, que podiam ter até duzentos ou trezentos alunos, eram divididas em grupos de dez; cada um desses grupos, com seu decurião, era colocado em um campo, o romano ou o cartaginês; a cada decúria correspondia uma decúria diversa”. (“Vigiar e Punir”, Michel Foucault)

“Por amor da regularidade da organização militar, repartiam-se as três centenas de alunos em grupos de trinta, sob o direto comando de um decurião ou vigilante. Os vigilantes eram escolhidos por seleção de aristocracia, asseverava Aristarco. (...) Estes oficiais inferiores da milícia da casa faziam-se tiranetes por delegação da suprema ditadura. Armados de sabres de pau com guardas de couro, tomavam a sério a investidura do mando e eram em geral de uma ferocidade adorável”. ("O Ateneu", Raul Pompéia)



Além da técnica da repartição espacial, uma outra característica da disciplina é o controle e codificação das atividades, através dos quais cada ato deve ter sua elaboração temporal, todos os gestos devem ser articulados e o tempo não pode ser desperdiçado. Elementos de uma disciplina militar, como a “marcha” e a “manobra”, fazem-se presentes no Ateneu, como podemos notar no seguinte trecho, em que o personagem Sérgio descreve uma apresentação de ginástica dos alunos:

“Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispuseram-se em pelotões, invadiram o gramal, e, cadenciados pelo ritmo da banda de colegas, que os esperava no meio do campo, com a certeza de amestrada disciplina, produziram as manobras perfeitas de um exército sob o comando do mais raro instrutor. Diante das fileiras, Bataillard, o professor de ginástica, exultava, envergando a altivez do seu sucesso na extremada elegância do talhe, multiplicando por milagroso desdobramento o compêndio inteiro da capacidade profissional, exibida em galeria por uma série infinita de atitudes”.

Nota-se que o Ateneu, portanto, no dizer do narrador, está repleto de elementos que nos remetem a uma organização militar. Mas não é só. O colégio tem também características disciplinares que nos fazem lembrar uma verdadeira prisão...

2 comentários:

Anônimo disse...

desculpa
de onde é esse texto?

felício disse...

parabéns, o texto está muito bom !! Deve ter sido uma pesquisa e tanto
falou